A Santíssima Virgem Maria: Elementos Marianos na Perícope de Lc 1, 26-38

INTRODUÇÃO

No momento hodierno, em meios ao grande fluxo de devoções[1], a Igreja resalta a veneração da Santíssima Mãe de Deus, a Virgem Maria. Por um lado, é visivelmente manifesto “a impressão de que a Mariologia seria um subproduto da Cristologia”, dando a impressão de ser “reminiscências de antiquíssimos modelos da história das religiões” (cf. RATZINGER, 1977, p. 7). Por outro, vale declarar que a devoção a Beatíssima Virgem nunca foi um subproduto da Cristologia ou uma assimilação de elementos de outras culturas religiosas.

Para Ratzinger, o problema do “subproduto Mariano” estaria na afirmação equivocada de teólogos de que “na estrutura do Credo Neotestamentário a Virgem-Mãe não possuía lugar algum” (2013, p. 7). No entanto, Ratzinger não nega que haja elementos ou influências de origem extracristã como dos mitos egípcios, do Culto da Grande Mãe e de Diana de Éfeso (idem).

Todavia, o problema a ser ressaltado e resolvido partirá da seguinte indagação: Haverá um lugar nas Sagradas Escrituras para algo como a Mariologia em toda a estruturação de sua fé e de sua oração? Existem elementos Mariológicos presentes nos textos do Novo Testamento, especialmente na perícope proposta?

Podemos afirmar e encontrar a iconografia de Maria Santíssima nos textos Veterotestamentários, pois se torna evidente e inequívoca sua presença no Novo Testamento, no entanto, vale lembrar que essa iconografia é plenamente tecida com fios do Antigo Testamento.

Um exemplo do que foi afirmado tem como base a tradição das grandes matriarcas presentes nas descrições do Antigo Testamento que são uma espécie de proto-icônes de Maria. Deste modo, podemos vislumbrar proto-icônes Marianos como em Gênesis e em Isaías. No Jardim do Éden, a Filha de Sião, a figura belíssima da Amada no Cântico dos Cânticos e a mais tocante, Maria como a Nova Arca[2] da Aliança: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl. 2, 7b). “Nossa Senhora vive de tal maneira que é permeável a Deus, habitável pela divindade, torna-se casa de Deus” (RATZINGER; BALTHASAR, 2004, p. 65). O ventre de Maria é o lugar de encontro com o verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Jesus Cristo. A Santíssima Virgem é a Janua Caelis, ou seja, a Porta do Céu (Visão de Jacó em Betel).

Assim, como aparecem os patriarcas como protagonistas da história, também à imagem de “Sara-Agar, Raquel-Lia, Ana-Penina são aquelas duplas de mulheres em que se desenha o elemento específico do caminho da promessa” (cf. RATZINGER, 1979, p.11). Nos casos das personagens mencionadas, acontece o embate entre a fertilidade e a infertilidade, ou seja, um encontro de valores sobrepostos como a Bênção e a Maldição. As mulheres apresentam uma imagem de mães, redentoras, juízas e profetizas. Portanto, a figura da mulher sempre será indispensável para a fé das Sagradas Escrituras.

Ao analisarmos o Antigo Testamento podemos selecionar três sentidos ou características de imagens proto-Marianas: imagens e símbolos (Arca da Aliança, Torre de Davi etc), as grandes personagens (Sara, Raquel, Judite, Débora, Ester, Betsabeia etc) e, por fim, as profecias (Gn 3, 15; Is 7, 11).

Muitos estudiosos afirmam que o tema mariano está ‘escondido’ sob três modos no Antigo Testamento: preparação moral, preparação tipológica e preparação profética. 1) Preparação moral […] Deus escolhe uma linhagem de fé e santidade para que o seu filho possa nascer da raça humana. 2) Preparação tipológica (linguagem simbólica): constatamos que no Antigo Testamento, muitas mulheres foram favorecidas com nascimentos milagrosos (Sara, Judite…). Todas estas mulheres fazem parte dos ancestrais do Messias esperado. Maria aparece como símbolo da “Filha de Sião” (Sof 3, 14-17), o lugar da residência de Javé […] 3) Preparação profética […] a)Ct 4,7: Tu és toda formosa, amada minha, e em ti não há mancha. O texto pode fazer alusão à concepção imaculada de Maria; b)Jer 31,22: Até quando andarás errante, ó filha rebelde? pois o senhor criou uma coisa nova na terra: uma mulher protege a um varão. c) Gn 3,15: Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar […] d) Is 7,14: Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel […] Embora o texto faz referência ao nascimento de um herdeiro na linhagem de Davi, pode ser muito bem ser aproveitado como uma profecia Mariana (cf. S/A, 2017).

Outro elemento importantíssimo é que a devoção popular e a piedade como afirma o teólogo:

Toda a piedade mariana, bem como a Teologia Mariana posterior, apoiam-se fundamentalmente na existência, no Antigo Testamento, de uma teologia da mulher profundamente consolidada e imprescindível para a sua construção geral: a figura da mulher na estrutura da fé e da piedade veterotestamentária como um todo, ao contrário de um preconceito largamente difundido, ocupa um lugar insubstituível (cf. RATZINGER, 2013, p.10).

Desta forma, o teólogo Ratzinger propõe que a mulher[3] ocupa um lugar de destaque no Antigo Testamento e que as afirmações contrárias a isso é resultado de uma compreensão errônea do conjunto veterotestamentário (RATZINGER, 2013, p.11).

1 Elementos de Mariologia presentes na perícope de Lc 1, 26-38: “A Anúncio à Virgem Maria”

“Ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus seu Filho, nascido de uma Mulher” (Gl 4,4). Como nos diz a Carta Apostólica Mulieris Dignitatem de São João Paulo II: “Este acontecimento conduz ao ponto chave da história do homem sobre a terra, entendida como história da Salvação” (1989, n.3). O apóstolo Paulo ao nomear a Mãe do Salvador como simplesmente Mulher faz concordância com o proto-Evangelho no Gn 3, 15, no qual o evento salvífico é realizado por sua cooperação, pois a mulher se encontra no coração deste evento.

No Catecismo da Igreja Católica, ao abordar sobre a Virgem Maria, o texto ensina que: “Desde toda a eternidade, Deus escolheu, para ser a Mãe de Seu Filho, uma filha de Israel, uma jovem judia de Nazaré na Galileia” (CaIC, n. 488).

Deus escolhe, manifesta-se e revela-se aos que se fazem pequenos, aos que são humildes. Desse modo, o divino é humanizado e o humano é divinizado pela própria ação divina. Como afirma Leonardo Boff sobre a exaltação da Mãe de Deus, as maravilhas das maravilhas feitas por Deus em Maria reside na exaltação dos humildes e da figura da mulher:

Lo grande del engrandecimiento divino consiste en ser engrandecimiento de lo pequeño; lo maravilloso de las maravillas realizadas por Dios – en María reside en la exaltación de lo humilde y de lo que no tiene apariencia. La gloria de Dios no tiene la misma estructura que la gloria humana. Esta necesita de boato, de grandilocuencia, de exuberancia, de lujo; aquélla, la gloria de Dios, se muestra en la pequenez, se revela en la insignificancia y se concreta en lo marginal (cf. BOFF, 1979, p.151.152).

A perícope proposta que será trabalhada, corresponde ao anúncio[4] do anjo Gabriel, a uma localidade pobre, onde morava uma jovem noiva, a virgem Maria, que recebe dela a disponibilidade e o consentimento para com a vontade divina (cf. MARCONCINI, 2012, p.170). Vejamos abaixo:

“26No sexto mês, o anjo Gabriel[5] foi enviado[6]  por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré”. O sexto mês corresponde ao contar dos dias da concepção de João Batista.

“27A uma Virgem[7] desposada[8] com um varão chamado José, da casa de Davi[9]; e o nome da Virgem era Maria[10]”. Nesse ponto da descendência ?? ????? ?????, uma querela interessantíssima, pois se José descende de Davi (Tribo de Judá), Maria descende de qual tribo? Existem duas possibilidades: Primeiramente, como o texto apresenta a relação de parentesco com Isabel a Tribo de Levi (descendentes diretos de Araão). Na cultura judaica o pai e a mãe tem um papel ímpar segundo a genealogia, sendo que o pai produz no filho direito a origem tribal (Sacerdotal, Profética e Real) e a mãe produz o ser judeu pelo nascimento de mãe judia. Outro costume judaico, Nm 3, 1-8.13, a mulher que estivesse órfão e possuísse herança tinha que casar com alguém da tribo paterna, mas como Maria era pobre pôde se casar com um homem de outra tribo. A outra hipótese, porém, como aparece no proto-evangelho de Tiago, Maria descenderia de outro ramo da Tribo de Judá, portanto, também da linhagem da Casa de Davi:

Os sacerdotes se reuniram e decidiram fazer um véu para o Templo do Senhor. O sacerdote disse: ‘Chama as moças imaculadas da Tribo de Davi’. Os ministros saíram e após procurarem, encontraram sete virgens. Então o sacerdote recordou-se de Maria [Mãe do Senhor ainda com a idade de 12 anos] e os mensageiros a buscaram (proto-Evangelho de Tiago 10,1).

No entanto, segundo uma crença judaica, que aparece em Jr 22, 30; 36, 30, “nenhum de seus descendentes prosperará e se assentará no trono de Davi nem governará em Judá”, fazendo uma referencia aos descendentes do rei Jeconias (filho de Josias) ramo que descende José conforme a genealogia de Mt 1, 11. Desse modo, o mais plausível é que em Maria foi ampliado o papel da mulher, pois agora não é somente judeu quem nasce do ventre de mãe judia, mas também recebe a linhagem tribal pelo motivo da partenogênese[11]. Desta forma, a linhagem real de Jesus Cristo foi dado por Maria e não por José. Por isso o Salvador nasceria de mulher sem contribuição de homem conforme atesta Mt 1, 16b: “??????, ?? ?? ???????? ?????? ? ????????? ???????”. Por fim, esse assunto ainda não está encerrado.

 28Entrando onde ela estava, disse-lhe: “Alegra-te, cheia de graça[12], o Senhor está contigo[13]”.  Conforme o verbo ????????, o encontro ocorreu no gineceu[14] da casa. Importante é ressaltar a saudação do anjo a menina Maria: “?????[15], ????????????, ? ?????? ???? ???”, já na saudação na Vulgata Clementina aparece: “Ave gratia plena Dominus tecum benedicta tu in mulieribus” (a parte em negrito foi acrescentada e não aparece nos originais no grego). O Ave lido de trás para frente corresponde ao nome Eva, ou seja, Maria é a Eva que foi obediente, a nova Eva, Mãe das Novas Criaturas: “Mãe eis ai o teu filho”. É Mãe Intercessora como se encontra em 1Rs 2, 20.

En el noveno y último —la vida eterna— se contempla a María como reina del universo junto con su Hijo, reinando sobre la creación reconciliada, no con la prepotencia de los señores de este mundo, sino en el servicio (cf Le 12,37) de unión con todos (BOFF, 1979, p.20).

O Ave além de significar Salve corresponde a uma saudação imperial semelhante ao famoso Ave Caesar. No versículo “29Ela ficou intrigada[16] com […] o significado da saudação”, pode ser refletida no texto do Magnificat (Lc 1, 46-55), onde ela rejeita as glórias temporais e opta pelas bênçãos espirituais. No entanto, a saudação Ave/????? pode demonstrar que, como Jesus descende de Davi, e nessa dinastia não havia rainha esposa, mas somente rainha mãe[17], Maria tenha ficado intrigada com tamanha honraria, daí o motivo dela se colocar como Serva do Senhor.

Antes do mais, observemos um costume das cortes do Oriente antigo: a mãe do rei gozava de especial veneração na Assíria, na Babilônia, na Fenícia, no Egito. Assim, também em Israel: a rainha-mãe era aí chamada gebirah, isto é, Mãe do Senhor ou Grande Dama; ver 1Rs 15, 13; 2Rs 10, 13; Jr 13, 18; 9, 2.14.21; 15, 2-10. O nome da rainha-mãe é frequentemente mencionado pelo autor dos livros dos Reis, ver 1Rs 14, 21; 15, 2.10; 22, 42; 2Rs 8, 26; 12,2; 14,2-33… Percebe-se claramente o destaque dado à rainha-mãe comparando entre si 1 Rs 1, 16 e 2, 19: no primeiro caso, a esposa de Davi, Betsabéia, vai pedir ao rei em favor de seu filho Salomão, ajoelhando-se e prostrando-se: “Betsabéia foi ter com o rei em seu aposento… Ajoelhou-se e pros-trou-se diante do rei, e o rei lhe perguntou: ‘Que desejas?’. Ao contrário, em 1Rs 2, 19 Salomão recebe a visita de sua mãe Betsabéia; levanta-se para ir ao seu encontro, prostra-se diante dela e manda que ela se sente à sua direita; ‘Betsabéia foi à presença do rei Salomão para lhe falar de Adonias. O rei se ergueu para ir ao seu encontro e se prostrou diante dela; depois sentou-se no seu trono e mandou colocar um assento para a mãe do rei e ela sentou-se à sua direita. Disse ela: ‘Tenho um pequeno pedido para te fazer, não mo negues’. O rei lhe respondeu: ‘Pede, minha mãe, que não to negarei’. Estes textos bíblicos explicam bem a posição de honra atribuída pelo povo de Deus a Maria Santíssima: na qualidade de Mãe do Senhor Jesus, ela é Rainha-mãe especialmente venerada. Há cem anos o povo católico do Brasil a proclamou Rainha muito estimada, título que nestes dias é renovado com fervor filial (BETTENCOURT, 2004, s/p).

Como afirma Richards, a reação de Maria ao ficar intrigada é a devida a sua tenra idade, pois diferentemente dela foi a reação de Zacarias, sacerdote do Templo, ao ver o anjo Gabriel devido a sua idade avançada. Por fim, ainda que o canto Magnificat represente a humildade e simplicidade de Maria, este apresenta uma profunda confiança no Senhor, sendo um modelo a ser seguido por todas as pessoas (cf. 2008, p.135).

Ainda em Lc 1, 28, aparece a palavra ???????????? que quer dizer a cheia de graça, a superfavorecida por Deus. No texto original de Lucas, o ???????????? substitui o nome Maria, intencionalmente como se o Anjo lhe desse um novo nome: “a agraciada de Deus”. Dessa forma, Deus gratuitamente a adorna de grande graça. Tendo base o versículo mencionado, a Igreja Católica vislumbra na Sagrada Escritura a revelação dos quatro dogmas Marianos: a Imaculada Conceição, Maternidade Divina, a Virgindade Perpétua e a Assunção, pois o Senhor[18] está com Ela, pois a Virgem Maria “foi enriquecida por Deus com dons dignos para tamanha função” (LG, 56).

30O Anjo porém acrescentou: “Não temas, Maria!” Encontraste graça junto de Deus. Nessa citação,  ????? ??? ????? ???? ?? ??? se encontra a explicação diante de palavra ????????????, pois Deus está do lado de Maria por causa da sua ?????[19].

31Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus. No texto original de Lucas, aparece ??? ???? ???????? ?? ?????? ??? ????. Nessa frase, dois verbos aparecem no tempo futuro ????????[20] e  ????. Já o pedido do nome da criança é de singular importância: “??? ???????? ?? ????? ????? ??????”. Jesus[21] deriva do prefixo Yahweh (Ye forma abreviada) e do sufixo Shu (Ajudar), tendo o significado de um grito de socorro a Deus, sendo ????? derivado da raiz salvar.

32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai. Jesus será  ?????, ou seja, incomparável com qualquer homem que já existiu ou existirá, mas será chamado de ???? ???????[22], que corresponde a sua natureza divina; ou seja, será verdadeiramente o Filho de Deus. Já o ?????? ????? era considerado propriedade de Deus, pois havia sido retirado de Saul[23] e dado o trono[24] a Davi, sendo que esse descendente de Judá. 33Ele reinará na casa de Jacob para sempre, e o seu reinado não terá fim. Reinará sobre ????? ????? significa sobre todas as tribos de Israel[25] num novo império.

Em Lc 1, 34, Maria orienta o anjo sobre a sua relação com o Ketubbah, mas o Anjo tem a resposta surpreendente em Lc 1, 35: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra, por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus”. Nesse pequeno trecho, salta aos olhos que o Messias nascerá do ??????? ??????? e que a ?????????? que cobrira Maria é a mesma expressão que aparece em Êx 19, 16, ou seja, a Shekinah[26]. Aparece descrito, ainda,  nesse versículo a presença do ?????? ????? que tem o papel de Esposo da Virgem Maria, pois um matrimonio foi consumado e um filho foi concebido.

Após narrar os acontecimentos com Isabel em Lc 1, 36 em Lc 1, 37: “Para Deus, com efeito, nada é impossível”. No original do versículo acima citado,  ?????????? ???? ??? ???? ??? ????, aparece uma possibilidade de tradução: “para a palavra de Deus nada é impossível”. Dessa forma, a palavra ???? adquire o mesmo significado de dabar[27], como em Gn 18, 14.

38Disse, então, Maria: “Eu sou a serva; faça-se em mim segundo tua palavra!” E o Anjo a deixou. Maria ao dizer:???? ? ????? ??????? ??????? ??? ???? ?? ???? ???”, Maria se faz ? ????? ??????, pois é uma derivação do título de Pobre de Javé tendo o significado de que: “Ser pobre, en El sentido bíblico, es vivir en pura disponibilidad, en radical confianza en Dios, en humildad confiada en el Señor, en la Fe abandonada a los designios divinos” (cf. BOFF, 1979, p. 166). E ainda, não menos importante, afirma Boff: “Ser pobre es una actitud del que quiere ser en todo siervo y sierva del Altísimo: Aquí está la esclava del Señor, cúmplase en mí lo que hás dicho (Le 1,38) (cf. BOFF, 1979, p. 166). Percebe-se que Maria fica totalmente a par da situação explicada pelo anjo Gabriel e, após isso, sua resposta é de imediata disponibilidade a Deus (cf. RICHARDS, 2008, p. 135).

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em Maria, Deus é exaltado; em Deus, Maria é elevada numa espécie de derramamento Trinitário que transforma profundamente o ser de Maria. Pode-se afirmar que Maria se relaciona profundamente com a Trindade, pois ela é a filha predileta do Pai amada e escolhida para ser Mãe de Deus, ou seja, para gerar, enquanto mulher, Nova Eva, a humanidade do Verbo de Deus através da ação esponsal do Espírito Santo fazendo nascer o Novo Adão. Por Maria a humanidade decaída é reerguida ao status de Nova Criatura desejada por Deus e concretizada em parte com o fiat mihi secundum verbum tuum de Maria e plenamente com a redenção por seu filho Jesus Cristo. O Catecismo da Igreja ensina que:

 “Desde toda a eternidade, Deus escolheu, para ser a Mãe de Seu Filho, uma filha de Israel, uma jovem judia de Nazaré na Galileia, “uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria” (Lc 1, 26-27).” (CaIC, n. 488).

E ainda:

Pero la ha aproximado de tal forma a la divinidad que ella pertenece al círculo trinitario (cuaternario) como madre de Dios. Ha sido constituida por eso mismo en reina del universo, en mediadora (en dependencia de Cristo) universal, en señora del cielo y de la tierra (BOFF, 1979, p.279).

Por fim, como afirmava Santo Irineu de Lyon: “O nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria; o que a virgem Eva ligou pela incredulidade a virgem Maria desligou pela fé” (Ad. haer. 3,22,4). Já dizia a Lumen Gentium, no Concilio Vaticano II, sobre Maria como nova Eva: “Veio a morte por Eva e a vida por Maria” (LG, 56).


REFERÊNCIAS

Livros:

BAUM, G. et al. O que é Religião? Uma questão para a Teologia Católica. Petrópolis – RJ: Vozes, Concilium, 1980.

BIBLIA SACRA, Vulgata Clementina. Biblia Sacra vulgatae editionis Sixti V Pontificis Maximi Jussu Recongnita et Clementis VIII auctotitate edita. Nova editio accuratissime emendata. Paris-France: Garnier Frates, 1868.

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

BOFF, Leonardo. El Rostro Materno de Dios: Ensayo interdisciplinar sobre lo femenino y sus formas religiosas. 4ª Ed. Petrópolis – RJ: Paulinas, 1979.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 3ª. ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 1993.

GOMES, Paulo; OLIVETTI, Odayr. Novo Testamento Interlinear Analitico: Grego-Português. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

JOÃO PAULO II, Papa. Mulieris Dignitatem: Carta Apostolica sobre a Dignidade da Mulher. Petrópolis – RJ: 1989.

______. Redemptoris Mater: Carta Encíclica sobre a Mãe do Redentor. São Paulo: Paulinas, 1987.

LUMEN, GENTIUM, Constituição Dogmática. Compêndio do Vaticano II. 26ª Ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 1997.

MARCONCINI, Benito. Os Evangelhos Sinóticos. 5ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2012.

RATZINGER, Joseph; BALTASHAR, Hans Von Hurs. Maria, primeira Igreja. Coimbra: Gráfica de Coimbra 2004.

______. A Filha de Sião: A devoção Mariana na Igreja. São Paulo: Paulus, 2013.

RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. 3ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.

SEPTUAGINTA, Versão da. Id est Vetus Testamentum Graece iuxta LXX interpretes edidit Alfred Rahlfs. Duo volumina in uno. Stuttgart – Germany: Biblia-Druck Stuttgart, 1979.

SMITH, Ralf L. A Teologia do Antigo Testamento: História, Método e Mensagem. São Paulo: Vida Nova, 2005.

Documentos Eletrônicos:

 BETTENCOURT, OSB. Dom Estevão. Nossa Senhora Aparecida Rainha. Pergunte e responderemos, n. 510. Rio de Janeiro: dezembro 2004. Disponível em: <http://www.pr.gonet.biz/kb_read.php?num=1728&head=0>. Acessado em 02 set 2017.

FUENTES, Pe. Miguel Ángel, I.V.E. Exsurge Domini: Maria, a Rainha dos Céus e o Livro de Jeremias (Jer 7,18; 44,7-19; 44,25.). Disponível em: <http://www.exsurge.com.br/apologeticas/maria/textosmaria/mariaarainhadosceuseolivrodejeremias.htm>. Acesso em: 23/11/2012. 

S/A. Maria na Bíblia. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/174171162/Apostila-Maria-Biblia>. Acessado em 01 set 2017.

Precisa Hoje dia 8 de outubro de 2017 Ribeirão do Pinhal

[1] Como afirmava Max Weber: “A religião […] proporciona a perspectiva ampla com que as pessoas abordam o mundo, sua própria atividade, a terra a que pertencem, o tempo que regula suas vidas, e seu futuro, inclusive a morte” (BAUM, 1980, p.35). Assim, as devoções como elementos constitutivos do Cristianismo Católico contribuem para que esse processo de apropriação dos valores e da cosmovisão religiosa continue presente em pleno séc. XXI.

[2] Nova Arca da Aliança tem o sentido de quê não é simplesmente as Tábuas da Lei que se encontravam na antiga Arca, mas agora a Palavra se faz carne em seu ventre, ou seja, a Palavra que guiava o Antigo Israel agora está presente como um homem de Israel.

[3] O sociólogo Max Weber ao analisar a sociedade e sua mudança ao longo do tempo pode concluir que a mudança social se deve-se fato de a religião proporcionar tal transformação (BAUM, 1980, p. 34).  Em Maria temos a coroação das expectativas do Antigo Testamento, uma transformação, pois: “La tradición de la fe ha concentrado lo femenino en María, madre de Jesús. Allí ha visto realizadas todas las posibilidades numinosas y luminosas de lo femenino, hasta el punto de ver en ella simplemente a Nuestra Señora: la virgen, la madre, la esposa, la viuda, la reina, la sabiduría, el taber” (BOFF, 1979, p.13).

[4] Maria é introduzida no mistério de Cristo definitivamente mediante aquele acontecimento que foi a Anunciação do Anjo (JOÃO PAULO II, 1987, n.11).

[5] Do grego ??????? que significa Mensageiro de Deus. Além de aparecer Gabriel nessa perícope ele aparece em Lc 1, 19; Dn 8, 16-26; 9, 21-27. Sendo um dos poucos anjos que aparecem em toda a Sagrada Escritura com nome próprio. Lembrando que o sufixo El deriva do Deus antigo cananeu e do nome Elohim.

[6] Do grego ???????? que deu origem a palavra apóstolo.

[7] Do grego ???????? que significa literalmente uma mulher que ainda não teve relações sexuais.

[8] Do grego ????????????? que significa prometida em casamento assim como aparece em Dt 22, 23. O fato de estar prometida em matrimônio significa que havia sido realizado o Ketubbah (Contrato Matrimonial) que já estabelecia obrigações aos noivos. Havia o pagamento do mohar o que equivalia a 200 denários ou 200 dias de trabalhos para comprar a noiva. Um caso famoso foi o mohar de Jacó em Gn 29, 15-30.

[9] Como afirma Smith: “A aliança de Deus com Davi – e não com Abraão – tomou-se o ponto de partida da esperança e da expectativa messiânica de Israel”. Vários salmos reais (2; 72; 110) foram no passado chamados salmos messiânicos, como se apenas se referissem ao rei messiânico vindouro, sem ligação” (SMITH, 2005, p.393).

com o contexto contemporâneo ou com o rei do momento.

[10] Nome equivalente ao que aparece na LXX em ex 15, 20 igual ao da irmã de Moisés.

[11] Do grego ????????, “virgem”, + ???????, “nascimento”; uma alusão à deusa grega Atena, cujo templo era denominado Partenon.

[12] O Mensageiro, efetivamente, saúda Maria como cheia de graça; e chama-a assim como se este fosse o seu verdadeiro nome. Não chama a sua interlocutora com o nome que lhe é próprio segundo o registro terreno: Miryam; mas sim com este nome novo: cheia de graça (JOÃO PAULO II, 1987, n.8).

[13] Com essa frase Maria é colocada à altura de grandes personagens como Jaco (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada pelo Altíssimo Senhor.

[14] Habitação mais profunda da casa onde ficavam as mulheres da família.

[15] O ????? também era saudação comum entre os gregos, correspondendo ao desejo de alegria: “Alegra-te”. Pode ser compreendido como base de uma boa notícia, o Evangelho, a vinda do Messias.

[16] Com tamanha saudação que a incomodou profundamente pela sua humildade e recato.

[17] Mulheres da dinastia de Davi que receberam o título de Rainha Mãe além de Betsabeia: Roboão (Judá; 931-913): Naama, a amonita [1 Rs 14,22]; Abiam (Judá; 913-911): Maaca [1 Rs 15,1]; Asa (Judá; 911-870): Maaca [1 Rs 15,10]; Josafá (Judá; 870-848): Azuba [1 Rs 22,42]; Ocozias (Judá; 841): Atalia [2 Rs 8,26]; Joás (Judá; 835-796); Sebias [2 Rs 12,2]; Amasias (Judá; 796-781); Joaden [2 Rs 14,2];Ozias (Judá; 781-740); Jequelias [2 Rs 15,2];Joatão (Judá; 740-736); Jerusa [2 Rs 15,33];Ezequias (Judá; 716-687); Abi [2 Rs 18,2]; Manassés (Judá; 687-642); Hafsiba [2 Rs 21,1]; Josias (Judá; 640-609); Idida [2 Rs 22,1];Joacaz (Judá; 609); Hamital [2 Rs 23,31];Joaquim (Judá; 609-598); Zebida [2 Rs 23,36]; Sedecias (Judá; 598-587); Hamital [2 Rs 24,18].

[18] Assim como em Lucas aparece a fórmula declarativa: “?????? ???? ???”. Igualmente ocorre na LXX a frase em Jz 6, 12.

[19] Assim como em Lucas aparece que Maria encontrou graça (?????) diante Deus, o mesmo ocorreu com Noé na LXX em Gn 6, 8. A expressão é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior. Deus salva Noé do dilúvio por causa da graça, agora o mesmo Deus salva Maria do pecado original, fazendo-a Imaculada Conceição e agora, Mãe de Deus.

[20] O mesmo verbo se repete numa frase semelhante em Gn 16, 1 que relata a concepção de Ismael.

[21] Ver Esd 2, 6.

[22] Em Lucas repetem-se vocábulos semelhantes a versão dos LXX. No entanto, o termo ??????? aparece na mitologia grega como sendo uma designação a Júpiter.

[23] Ver 2 Sm 3, 10.

[24] Ver Jr 22, 4.

[25] ??? ???? ??????,essa frase se repete na LXX em Dn 7, 14.

[26] Que quer dizer a manifestação de Deus no meio do povo.

[27] É a palavra criadora.


Caio Murilo de Souza