Homilia – 1º Domingo do Advento

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EVANGELHO

“Fiquem vigiando”

1ª Leitura: Is 63,16b-17.19b; 64,2b-7 / Sl 79 / 2ª Leitura: 1 Cor 1,3-9 / Evangelho: Mc 13,33-37

33 Prestem atenção! Não fiquem dormindo, porque vocês não sabem quando vai ser o momento. 34 Vai acontecer como a um homem que partiu para o estrangeiro. Ele deixou a casa, distribuiu a tarefa a cada um dos empregados, e mandou o porteiro ficar vigiando. 35 Vigiem, portanto, porque vocês não sabem quando o dono da casa vai voltar; pode ser à tarde, à meia-noite, de madrugada ou pelo amanhecer. 36 Se ele vier de repente, não deve encontrá-los dormindo. 37 O que eu digo a vocês, digo a todos: Fiquem vigiando.»


* 28-37: Somente agora Jesus responde à pergunta dos discípulos (v. 4). Mas, em vez de dizer «quando» ou «como» acontecerá o fim, ele indica apenas como o discípulo deve se comportar na história. A tarefa do discípulo é testemunhar sem desanimar, continuando a ação de Jesus. A espera da plena manifestação de Jesus e do mundo novo por ele prometido impede, de um lado, que o discípulo se instale na situação presente; de outro, evita que o discípulo desanime, achando que o projeto de Jesus é difícil, distante e inviável.


COMENTÁRIO

Ir ao encontro do Senhor que vem

O Advento, neste ano B, mostra um certo clímax. No 1º domingo, sugere-se uma atitude de preparação geral para o encontro final com o Senhor. Nos domingos seguintes, a preparação se torna sempre mais concreta: a conversão, a consciência de que ele está no meio de nós, e, finalmente, o “sim” do homem, pronunciado por Maria, para que sua presença se realize como cumprimento das promessas.

O 1º domingo transborda de confiança. A vinda do Senhor não é, para o cristão, uma razão de medo e terror, mas de alegre esperança. O desejo da vinda do Senhor expressa-se de maneira apaixonada na 1ª leitura: “Se rasgásseis os céus”: com estas palavras, o profeta desafia Deus para vir em socorro de seu povo humilhado, a terra de Judá, desarticulada nos anos imediatamente posteriores ao exílio e esperando a restauração nacional. Chega de castigo. Sabemos que somos fracos, como um vaso de barro; mas será isso uma razão para o oleiro desprezar a sua obra?

O encontro definitivo com Deus, o “Dia”, significa, para o cristão, a plena manifestação daquilo que Cristo iniciou e, depois de sua elevação na glória, confirmou nos seus fiéis. Quando Paulo contempla os seus fiéis de Corinto, ele tem que dar graças por tudo isso, proclamando a fidelidade de Deus à obra iniciada. E faz votos de que eles sejam “irrepreensíveis”. Mas essa expectativa do encontro definitivo, muito viva entre os primeiros cristãos, não é um entusiasmo cego. Cristo veio inaugurar a presença do Reino de Deus, e seus discípulos, iluminados pelo Espírito de Pentecostes, entenderam que, depois de sua elevação na glória, ficava para eles a missão de continuar o que ele fundara. Ele é como o dono de uma empresa, que viajou ao exterior, deixando a seus funcionários o cuidado da empresa (“e ao porteiro a ordem de vigiar”, acrescenta o texto de Mc 13,34 aludindo, provavelmente, à responsabilidade dos que detêm o “poder das chaves”).

Enquanto o Senhor está fora, nós somos os responsáveis do Reino. Cristo veio, a primeira vez, para nos revelar o sentido verdadeiro do esperado Reino de Deus: revelou que “a causa de Deus é a causa do homem”, e onde se realiza o amor que Deus tem pelo ser humano, aí também está presente o Reino (evangelho). Agora, na ausência de Cristo, podemos inverter a relação: nós devemos assumir como nossa a causa de Deus (que não deixa de ser a causa do homem). Isto é a “vigilância escatológica”: estarmos ocupados, diligentemente, com o Reino que Cristo mostrou presente, enquanto vivemos preparando-nos para o encontro com ele.

Assim, notamos também a diferença entre a esperança do A.T. e a plenitude do Reino na perspectiva do N.T. A 1ª leitura descreve ainda a esperança de uma intervenção de Deus para, de maneira sensacional – rasgando os céus -, resolver os problemas de seu povo. No N.T., a vinda de Cristo, como “lugar-tenente” de Deus, no fim dos tempos, não tem em vista assumir as nossas funções (isto já o fez da primeira vez), mas sim, encontrar-nos ocupados com seu Reino.

Portanto, se a existência cristã é marcada fundamentalmente pela perspectiva escatológica, esta não significa que podemos cruzar os braços esperando que Deus venha resolver nossos problemas, no seu Dia. Significa, antes, o contrário. Significa que nós nos devemos empenhar em realizar aqui o que ele veio fundar. A parte de Deus, no “empreendimento escatológico”, já está garantida, Cabe a nós agora executar a nossa. E o encontro definitivo com Deus, que é a luz decisiva de nossa existência, ratificará a execução daquilo que nos foi confiado. Ora, não sabemos quando será esse encontro definitivo, nem sabemos por quanto tempo Deus nos confiou sua empresa. A única maneira para que possamos entregar-lhe um relatório que corresponda àquilo que ele espera é: nunca faltar no serviço. Viver cada dia de nossa existência como se fosse o último. A vinda do Senhor é hoje!

Assim, este primeiro domingo do Advento e do ano litúrgico nos coloca na presença permanente de Deus como sentido último de nossa existência e atuação em cada momento. Ora, como esta presença é uma alegria, o momento presente do cristão deve ser marcado pela alegria da presença do Senhor que encontra seu servo empenhado em sua causa.

A oração final da presente liturgia o diz muito bem: “amar desde agora as coisas do céu e, caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam”. Quem não observa todo o espírito do Evangelho poderia ler isto num sentido alienante: evitar as coisas deste mundo para só pensar no céu. Porém, as coisas que não passam encontram-se já aqui, na terra! Devemos amar o céu que já está aqui, na causa do Reino que Cristo nos confiou, a causa de seu incansável amor para todos, a começar pelo último.

 


MENSAGEM

Estar pronto para Cristo

Começa o Advento, início do novo ano litúrgico (ano B). Na 1ª leitura, o profeta Isaías provoca Deus a “rasgar o céu”e a descer para nos salvar. Estamos murchos como folhas mortas. E, contudo, Deus é nosso Pai, nós somos obras de suas mãos.
Como o povo humilhado, no tempo do exílio babilônico, fazemos nosso o desejo de que Deus venha nos socorrer.
Encontrar-se com Deus não é motivo de terror, mas de esperança. Se nos voltarmos para ele, ele se voltará para nós.

Na 2ª leitura, Paulo nos assegura que Deus nos fortalecerá até o fim, quando Cristo abrirá o céu e descerá para nos fazer entrar em sua glória. O encontro definitivo com Deus significa para o cristão a plena manifestação daquilo que Cristo iniciou.

O evangelho, todavia, adverte: não sabemos quando o Senhor voltará para pedir contas do serviço que ele deixou em nossas mãos. Por isso, convém vigiar. A ressurreição de Jesus é como a viagem de um empresário. Enquanto ele está fisicamente longe somos nós os responsáveis por sua obra. Ora, a obra que Jesus iniciou e levou a termo, até a morte, foi a obra da justiça e do amor fraterno. Quando nos empenhamos por isso, sua obra acontece. A causa de Deus é causa nossa. Devemos sempre estar preocupados com o amor fraterno, que Jesus deixou aos nossos cuidados e do qual ele mesmo deu o exemplo até o fim.

O ano litúrgico é o espelho de nossa vida. Desde o início, coloca-nos na presença permanente de Deus como sentido último de nossa vida, a cada momento. Põe diante de nossos olhos a vocação final: o encontro com Cristo na glória de seu pai. Nesta perspectiva, sentimo-nos obra inacabada, mas em Cristo temos o exemplo e a garantia do acabamento que Deus nos quer conferir: uma vida doada no amor até o fim. Jesus, ressuscitado e vivo na glória do Pai, quer vir até nós, para completar a obra do Pai em nós e nos aperfeiçoar no amor fraterno, com a condição de sermos encontrados empenhados no serviço que ele nos confia.

Advento é preparação para Natal, celebração da vinda de Jesus no meio de nós. Vinda no presépio, mas também vinda no dia-a-dia e no encontro definitivo. Advento significa que nos preparamos para nos encontrar com ele, na alegria, cuidando do amor que ele veio aperfeiçoar em nós.

Deus nos respeita tanto que conta com a nossa colaboração; a salvação não vem só de um lado. Em Jesus, ele nos mostrou em que consiste sermos salvos: em sermos como Jesus, agora, na vida terrena, e eternamente, na glória. Essa é a parte da salvação que Deus realiza. A nossa parte é: estarmos prontos, acatarmos sua obra, no amor disponível e eficaz de cada dia. Muitos hoje, se sentem abandonados, deprimidos. Existe até uma indústria da depressão, procurando vender remédios antidepressivos…

“Há alguém que se preocupe comigo?”, pergunta o deprimido. Mas talvez ele não se prontifique para encontrar. Aquele que transforma nossa vida debilitada em esperança engajada… Por isso, a liturgia de hoje nos ensina a correr ao seu encontro!

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